Olá, amigos.

Max Verstappen, da Red Bull-Honda, afirmou depois da irrepreensível vitória no GP do México, neste domingo, permitindo-o abrir importante vantagem de 19 pontos na classificação para Lewis Hamilton, Mercedes, segundo colocado: “Foi crucial para mim pular para o primeiro lugar naquele momento (largada). A partir daí pude impor o meu ritmo”.

A ultrapassagem de Max, terceiro no grid, sobre a dupla da Mercedes, Valtteri Bottas e Hamilton, pole position e segundo, no fim da reta dos boxes, em seguida ao início da prova, já está nos registros de manobras antológicas da F1. Facilitou bastante o caminho para o holandês aproveitar-se da maior velocidade e equilíbrio do modelo RB16B-Honda da Red Bull em relação ao W12 da Mercedes, apesar de no sábado, com o aumento da temperatura e o uso dos pneus macios da Pirelli, Bottas e Hamilton surpreendentemente terem sido os mais rápidos na sessão de classificação.

Veja a classificação e o calendário da F1

Em condição de corrida, porém, com pneus médios e duros, a esperada maior eficiência do carro da Red Bull-Honda acabou por comprovar-se. O Circuito Hermanos Rodriguez, localizado a 2.250 metros acima do nível do mar, já em 2019 – no ano passado não houve GP do México, por causa da pandemia -, a Red Bull-Honda foi mais rápida que a Mercedes, apesar de Hamilton vencer.

Há na F1 o consenso de que o conjunto turbina-compressor da unidade motriz da Honda, de maior dimensão, gera a seus pilotos maior potência que as produzidas pela Mercedes, Ferrari e Renault, observável principalmente nas condições de ar mais rarefeito, como na Cidade do México.

Esse cenário joga a favor, ainda, de carros capazes de gerar mais pressão aerodinâmica, como tradicionalmente é o caso dos projetos coordenados pelo genial Adrian Newey, da Red Bull.

Esses dois elementos associados ao extraordinário talento de Max explicam em grande parte o seu sucesso na 18ª etapa do calendário, levando Hamilton a dizer, pouco antes do pódio: “Dei tudo que era possível. Mas hoje eles simplesmente eram mais rápidos do que nós”.

Ainda mais importante foi Hamilton ver suas chances de conquista do oitavo título diminuírem, ainda que tudo possa acontecer nas quatro etapas que restam do campeonato: o GP de São Paulo, domingo, o do Qatar, dia 14, da Arábia Saudita, 5 de dezembro, e de Abu Dhabi, 12.

Largada no GP do México – Foto: Reprodução/F1

Metro a metro, segundo a segundo

Já que a ultrapassagem de Max foi decisiva para a 19ª vitória na carreira e aproximá-lo um pouco mais do seu primeiro título mundial, bem como teve espetacularidade única, que tal reconstruir quadro a quadro a largada do GP do México, tentarmos entender algumas questões que ficaram no ar?

Por exemplo: Hamilton disse que Bottas deixou a porta aberta para Max. Referia-se a quando estavam lado a lado, na reta, aproximando-se da freada da curva 1 e o finlandês não se deslocar para a esquerda, a fim de não dar chance ao piloto da Red Bull de, aproveitando-se do vácuo, ultrapassá-lo.

Eu apostaria todas as minhas fichas que na conversa que tiveram no domingo pela manhã, o combinado entre Hamilton, Bottas, Toto Wolff, sócio e diretor da equipe Mercedes, e James Vowles, estrategista do grupo, era este: primeira hipótese, Hamilton pega o vácuo de Bottas e tenta ultrapassá-lo antes ainda da freada da curva 1.

Hipótese dois: se não der para Hamilton se posicionar atrás de Bottas, permanece lado a lado, formando quase uma barreira para quem vem atrás, e na freada da curva 1 Hamilton breca alguns metros depois para ganhar a posição do companheiro, passando a liderar a corrida, com o Bottas atrás com a função de realizar a primeira linha de defesa contra os adversários.

Verifique nos vídeos

Disponibilizo aqui o link de algumas opções de vídeos, com ângulos distintos dos primeiros segundos da prova deste domingo:

Aqui também (clique para abrir).

https://twitter.com/redbullracing/status/1457757557943152643

Hamilton traciona melhor que Bottas e desloca seu W12 para a esquerda. Mas vê que não há como entrar imediatamente atrás do companheiro porque Max, terceiro no grid, também larga bem e está perto da traseira da Mercedes de Bottas. Hamilton vai, então, para a segunda hipótese do combinado.

Fica lado a lado com Bottas. Oito segundos depois de autorizada a largada, as coisas começam a se complicar. Max pega o vácuo de Bottas. Lembrando: o modelo RB16B-Honda dispõe de alguns cavalos a mais. Na simulação de corrida, realizada na sessão da tarde de sexta-feira, o time da Mercedes viu que Max e Perez eram mais rápidos.

Pessoalmente controlei um long run de Max e Hamilton, oito voltas, com pneus duros, e o piloto da Red Bull-Honda foi, em média, impressionante meio segundo mais veloz. Não sabemos a massa de combustível de cada um, mas nessas condições quase nunca as escuderias liberam seus pilotos para a pista com menos de 60 quilos de gasolina. O máximo possível na largada é de 110 quilos.

A passividade de Bottas

Após 11 segundos de corrida, Max está lado a lado com Bottas, no lado esquerdo do concorrente. Hamilton, no segundo seguinte, desloca um pouco seu W12 para a direita, para defender-se de possível ataque de Sérgio Perez, parceiro de Max. É o que esperava que Bottas fizesse em relação ao holandês.

E poderia fazê-lo? Com certeza, sim. Ao ver Max no vácuo e entender que a ultrapassagem só poderia ser pela esquerda, por conta de Hamilton estar à direita, seria autorizado ao finlandês deslocar-se para a esquerda, não deixar espaço para Max tentar ganhar a posição.

Atenção: Bottas teria de fazer isso antes de Max ir para a esquerda. Se mudasse de posição depois, obrigando Max frear, provavelmente seria punido.

Seria por que Bottas vai deixar a Mercedes no fim do ano para pilotar para a Alfa Romeo, em 2022? Quem sabe. Pessoalmente acho pouco provável.

Os três, lado a lado, na reta principal

13 segundos: os três estão percorrendo a reta principal do circuito lado a lado, com Bottas no meio, Hamilton a sua direita e Max, à esquerda. Observe nos vídeos o que acontece a seguir, é impressionante. Os três ultrapassam a placa dos 150 metros para o início da curva 1 e na altura dos 125 metros Bottas começa a frear.

Mesmo com o carro pesado, os pilotos de F1 não freiam antes dos 100 metros. A reação de Bottas é inesperada.

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De repente, ele fica para trás e tanto Hamilton pela direita quando Max, esquerda, o ultrapassam. Aqui entra em cena o já mencionado, a extrema habilidade do piloto da Red Bull-Honda, uma arte, mas favorecido também por dois fatores relevantes: Max ocupa a faixa por onde os carros passam durante todo o fim de semana, a trajetória normal, onde há naturalmente mais borracha e aderência no asfalto.

Outra: como mencionado, o modelo RB16B-Honda gera mais pressão aerodinâmica e quando o piloto freia com o carro mais bem apoiado no piso a estabilidade é maior, é possível frear mais dentro da curva. Repare no vídeo, na câmera aérea, como a diferença entre o instante em que cada um dos três começa a brecar é brutal.

Sobrou pista

A vantagem de Max, de recursos humanos e técnicos, é tamanha que na saída da curva 1 ele passa somente com parte das rodas do lado esquerdo sobre a faixa branca, não avança mais para a área de escape, mesmo tenho freado bem depois, para os parâmetros da F1, de Bottas, e um pouco mais de Hamilton.

E o que ocorre a seguir? A tal da imposição do ritmo, citada por Max na coletiva. Com um conjunto chassi-unidade motriz mais eficiente para aquela condição, sua competência profissional fez o restante.

Na primeira volta o safety car foi acionado pelo diretor Michael Masi para a retirada da Haas de Mick Schumacher e da Alpha Tauri de Yuki Tsunoda, envolvidos no acidente provocado pelo toque de Daniel Ricciardo, da McLaren-Mercedes, em Bottas, na curva 1.

Aquele foi um bom exemplo da enorme diferença entre a aderência do asfalto de quem está na trajetória normal, a de Max, máxima para a condição, e a interna, ocupada pelo australiano, mínima. Sem conseguir frear o carro na sujeira, o piloto da McLaren-Mercedes não teve como reduzir tanto a velocidade, favorecendo o incidente de corrida.

Festa da vitória de Verstappen no México – Foto: Red Bull

Abria vantagem sem dificuldade

Ao final da quarta volta o safety car entrou nos boxes. Max cruzou a linha de chegada no fim da quinta volta, a primeira completa de corrida, com uma vantagem de 1s851 para Hamilton, segundo, 3s243, para Perez, terceiro, e 4s450, Pierre Gasly, da Alpha Tauri.

Uma volta antes de Hamilton realizar o seu pit stop, na 28ª de um total de 71, Max liderava 9s178 na frente de Hamilton, segundo. Na 34ª, seguinte a Max fazer sua parada, a diferença a favor do holandês era de 15s789. Na bandeirada, 16s555, uma das maiores entre ambos na temporada.

A performance excelente de Gasly, quinto no grid, quarto na corrida, reforça a impressão generalizada dos cavalos a mais disponibilizados pela unidade motriz Honda em pistas localizadas onde o ar é mais rarefeito. Gasly só ficou atrás dos pilotos da Red Bull-Honda e Hamilton.

Essa característica levou o consultou com poder de diretor da Red Bull, Helmut Marko, a afirmar antes ainda dos GPs do México e agora o de São Paulo: “Essas duas provas devem ser muito boas para nós”. São Paulo está, em média, 760 metros acima do nível do mar.

É bem diferente dos 2.250 metros do circuito mexicano, mas também representa uma ajuda para Max e Perez. Em 2019, última edição do GP Brasil, o holandês foi sempre o mais rápido e venceu.

Nada de favoritismos

Mas, como sempre os próprios pilotos destacam, entre estar em uma situação mais favorável para vencer e receber a bandeirada em primeiro lugar há imprevisíveis 305 quilômetros pela frente. E no caso das provas de sábado, a sprint race, e de domingo, as 70 voltas da corrida, há ainda a esperada instabilidade do clima de São Paulo.

Os meteorologistas com quem as equipes trabalham já devem lhes ter informado que chuvas são esperadas à tarde no fim de semana, só não sabem a hora. Típico das competições em Interlagos, para nossa alegria. Voltaremos a nos encontrar aqui esta semana e lá do Autódromo de Interlagos. Bom GP de São Paulo para todos nós!

Abraços.

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